Sombrio
Quando a Noite Aprende a Ter Forma
Quando a noite cai, o medo toma forma na escuridão — não como um vulto imediato, mas como algo paciente, antigo, que conhece o tempo e sabe esperar. O ar se adensa, e cada respiração parece um esforço consciente. A luz, mesmo acesa, já não cumpre seu papel; ilumina, mas não protege. As sombras permanecem, firmes, ocupando espaços demais, como se tivessem aprendido a existir por conta própria.
É nesse silêncio pesado que a mente se torna território vulnerável. Pensamentos enterrados durante o dia ressurgem com clareza cruel. Lembranças que deveriam permanecer mortas caminham pelos corredores da memória, arrastando culpas, perdas e promessas não cumpridas. A noite não inventa tormentos — ela apenas remove os véus.
As casas mudam depois de certa hora. Rangem como se sentissem dor, estalam como ossos antigos. Portas parecem respirar, janelas observam. Há corredores que se alongam, quartos que parecem menores, e cantos onde a escuridão se acumula, espessa demais para ser apenas ausência de luz. Em alguns momentos, surge a sensação de que o espaço reconhece quem o habita — e o julga.
O medo verdadeiro não vem do que se vê, mas do que se pressente. Passos que cessam quando alguém acorda. Sussurros que não formam palavras, mas carregam intenção. A certeza incômoda de não estar só, mesmo quando tudo está trancado. A noite se torna uma presença — discreta, observadora, íntima demais.
Há um instante preciso, quase imperceptível, em que o terror se consolida: quando se percebe que não há mais para onde fugir. Que fechar os olhos não afasta a escuridão, apenas a convida para dentro. Nesse momento, o medo deixa de ser sensação e passa a ser companhia.
E quando o amanhecer finalmente chega, trazendo luz e movimento, algo permanece. Um resquício silencioso, uma marca invisível. Porque quem encara a noite até o fim nunca retorna inteiro. A escuridão aprende nossos nomes — e jamais os esquece.


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