Desabafo

Não sentia nada.
Não porque o outro fosse pouco —
mas porque o coração nunca esteve ali.
Ficou.
Não por amor,
mas por conveniência disfarçada de respeito,
por um carinho raso que não criou raízes,
por uma admiração fria, incapaz de cuidar.
Havia exigência onde deveria existir entrega.
Havia pedidos onde deveria haver escolha.
Um sustentava o peso,
o outro poupava o próprio coração.
Amor não se prova com permanência vazia.
Não se constrói com esforço solitário.
Não sobrevive de silêncio e cobrança.
No fim, ficou claro:
deixar exatamente onde estava
era o único gesto possível.
Porque reciprocidade não é excesso —
é o mínimo para que o sentimento
não apodreça no escuro.

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